E por que a mesma tecnologia de RNAi está sendo estudada em outras doenças neurodegenerativas?
O caso de Lito Sousa chamou a atenção para uma tecnologia que está na fronteira da medicina: o RNA de interferência (RNAi).
Lito, diagnosticado com doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), recebeu o ALN-6457, uma substância experimental desenvolvida pela Regeneron em colaboração com a Alnylam. O tratamento foi autorizado em caráter excepcional, diante da gravidade e rápida evolução da doença e da ausência de terapias aprovadas.
Mas há uma informação importante: o ALN-6457 ainda é experimental para doenças priônicas. Seu uso em Lito não significa que sua eficácia ou segurança para a DCJ já estejam comprovadas.
Ao mesmo tempo, a tecnologia de RNAi vem sendo estudada em outras doenças neurodegenerativas, como Alzheimer de início precoce e doença de Huntington – com outras moléculas e outros alvos.
O que é RNA de interferência?
De forma simplificada, o DNA contém as informações utilizadas para produzir proteínas. Essas informações são copiadas para moléculas de RNA mensageiro (mRNA), que participam da produção das proteínas.
O RNA de interferência pode ser utilizado para reduzir a produção de uma proteína específica.
As terapias baseadas em RNAi utilizam pequenas moléculas de RNA, como os siRNAs, que reconhecem determinados RNA mensageiros e promovem sua degradação.
Assim: DNA → RNA mensageiro → proteína
O RNAi atua nessa etapa intermediária, reduzindo a produção de determinada proteína sem precisar modificar diretamente o DNA.
Como isso se relaciona à doença de Creutzfeldt-Jakob?
As doenças priônicas estão relacionadas ao comportamento anormal da proteína priônica.
O ALN-6457 utiliza uma molécula de siRNA direcionada ao RNA mensageiro produzido a partir do gene PRNP, responsável pela produção dessa proteína.
A proposta é reduzir a quantidade de proteína priônica normal disponível nas células. A hipótese é que, ao diminuir esse “substrato”, seja possível interferir no processo de propagação das formas anormais da proteína.
É uma estratégia diferente de tentar eliminar diretamente as proteínas já acumuladas.
E o tratamento já funciona?
Ainda não se sabe.
O ALN-6457 encontrava-se em estágio pré-clínico de desenvolvimento para doenças priônicas e ainda não havia passado pelos estudos clínicos necessários para estabelecer sua eficácia e segurança nessa indicação.
Por isso, o uso em Lito deve ser entendido como experimental.
O acesso compassivo a uma substância em desenvolvimento não equivale à aprovação do medicamento e também não comprova que ele seja eficaz.
A mesma tecnologia está sendo estudada para Alzheimer e Huntington?
Sim, mas é importante fazer uma distinção: não é o ALN-6457 que está sendo estudado para essas doenças.
A tecnologia de RNAi está sendo utilizada em diferentes programas de pesquisa, com moléculas e alvos específicos.
No Alzheimer de início precoce, por exemplo, o mivelsiran (ALN-APP) busca reduzir a produção da proteína precursora amiloide (APP).
Na doença de Huntington, o ALN-HTT02 busca reduzir a produção da proteína huntingtina (HTT).
Ou seja: mesma tecnologia → diferentes moléculas → diferentes alvos → diferentes doenças.
Essa diferença é fundamental para entender o que a ciência realmente está investigando.
O que ainda precisamos descobrir?
No caso do ALN-6457, ainda existem perguntas importantes:
- Qual é a dose adequada?
- Por quanto tempo o efeito pode durar?
- A redução da proteína priônica será capaz de alterar a evolução da doença?
- Quais podem ser os efeitos adversos?
- Em que momento da doença essa estratégia teria maior potencial?
Essas respostas dependem de estudos científicos e clínicos.
Um caso individual pode gerar conhecimento e abrir novas perguntas, mas não substitui a evidência produzida por pesquisas clínicas.
Uma nova frente para as doenças neurodegenerativas
O desenvolvimento de terapias baseadas em RNA mostra como o conhecimento sobre os mecanismos moleculares das doenças pode abrir novas possibilidades de tratamento.
Ainda existem muitas perguntas, e muitos desses medicamentos podem não chegar a se tornar terapias aprovadas.
Mas a pesquisa com RNAi em doenças como doenças priônicas, Alzheimer e Huntington mostra uma mudança importante na medicina: a possibilidade de interferir de maneira cada vez mais específica nos mecanismos biológicos envolvidos na doença.
No caso do ALN-6457, o próximo passo é descobrir se essa hipótese poderá se transformar em um tratamento seguro e eficaz para doenças priônicas.
E essa resposta só poderá vir com mais ciência.